Jararaca-verde (Bothrops bilineatus) fotografada no Espírito Santos, pelo biofacer Lucas Aosf

Quem são os répteis e por que eles são tão mal vistos?

Quem são os répteis e por que eles são tão mal vistos?

Os répteis habitam a Terra há milhões de anos, muito antes do surgimento dos primeiros mamíferos. Em épocas passadas, já dominaram os ambientes mais diversos, seja no solo, nas águas e até mesmo, os céus do nosso planeta. No Dia dos Répteis, que tal conhecer um pouco mais sobre esse grupo e refletir sobre os motivos que construíram sua reputação negativa ao longo do tempo? Continue com a gente até o final!

 

Afinal, o que são os répteis?

Quando pensamos em répteis, é comum lembrarmos das cobras, lagartos, tartarugas e crocodilos. No entanto, esse grupo é ainda mais diverso do que muita gente imagina.

Do ponto de vista científico, os répteis pertencem ao clado Sauropsida, um grande grupo que inclui não só esses quatro principais representantes, mas também espécies menos conhecidas, como as anfisbenas (popularmente chamadas de “cobras-cegas”) e as enigmáticas tuataras, nativas da Nova Zelândia. 

E não para por aí, os dinossauros também pertencem a esse clado, assim como suas  únicas descendentes vivas, as aves.

Jabuti-gigante-de-santa-cruz (Chelonoidis porteri), um dos maiores quelônios do mundo, registrado na Ilha de Santa Cruz, em Galápagos/Equador, por Thiago Silva-Soares
Jabuti-gigante-de-santa-cruz (Chelonoidis porteri), um dos maiores quelônios do mundo, registrado na Ilha de Santa Cruz, em Galápagos/Equador, por Thiago Silva-Soares.

Apesar dessa complexidade, no dia a dia costumamos chamar de répteis apenas os animais que tradicionalmente conhecemos, uma simplificação influenciada pela tradição cultural e popularização do termo.

Na divisão tradicional, a classe Reptilia é dividida em 4 ordens principais: 


Squamata: serpentes, lagartos e anfisbenas;

Sphenodontia: tuataras;

Testudines: tartarugas marinhas, jabutis e cágados;

Crocodilia: crocodilos, jacarés e gaviais.

Comparação entre a Classe tradicional Reptilia e o clado Sauropsida, incluindo as aves. Crédito: Sittaco/Wikimedia Commons
Comparação entre a Classe tradicional Reptilia e o clado Sauropsida, incluindo as aves. Crédito: Sittaco/Wikimedia Commons

 

Para facilitar o entendimento, neste artigo de blog vamos concentrar nossa atenção nessas espécies.

 

Quais as principais características dos répteis?

Por conta de certas características que compartilham entre si, conseguimos diferenciar os répteis dos demais grupos de animais. 

Mais do que isso, essas mesmas características  permitiram que eles ocupassem e sobrevivessem nos mais diversos ambientes, de ambientes úmidos e chuvosos até desertos áridos de todo o mundo.

 

Pele escamada e resistente

O corpo dos répteis é coberto por escamas ou osteodermas, estruturas altamente queratinizadas. Essa epiderme resistente forma uma armadura protetora contra predadores, ajuda na manutenção da temperatura corporal e reduz  a perda de água por evaporação.

Vale lembrar que as escamas não são estruturas separadas da pele, mas sim dobras ou elevações da própria epiderme. Em muitas espécies exibem colorações e padrões que favorecem a camuflagem, auxiliando tanto na defesa quanto na predação.

Periodicamente, através do processo de ecdise (ou muda), os répteis substituem a camada superficial da pele, permitindo o crescimento e a renovação de tecidos.

Crocodilo-do-nilo (Crocodylus niloticus), a 2ª maior espécie de crocodiliano e de importância histórica no Antigo Egito. Por: Paulo Dimas Mascaretti
Crocodilo-do-nilo (Crocodylus niloticus), a 2ª maior espécie de crocodiliano e de importância histórica no Antigo Egito, por Paulo Dimas Mascaretti.

 

Ectotermia: o famoso “Sangue Frio” dos répteis

Diferente de mamíferos e aves, que são endotérmicos, os répteis não produzem calor suficiente internamente para manter uma temperatura corporal constante. Em vez disso, dependem de fontes externas de calor, como o sol ou superfícies aquecidas, para regular sua temperatura.

Essa característica influencia diretamente o ritmo e o comportamento desses animais. Em períodos frios, tornam-se menos ativos e podem entrar em estado de letargia, enquanto em temperaturas mais elevadas, atingem picos de atividade, tornando-se mais ágeis para caçar, fugir de predadores ou realizar outras funções vitais.

 

Iguana-marinha (Amblyrhynchus cristatus) registrado nas pedras costeiras das Ilhas Galápagos, por Nina Attias
Iguana-marinha (Amblyrhynchus cristatus) registrado nas pedras costeiras das Ilhas Galápagos, por Nina Attias

 

Por isso, é comum observar répteis se expondo ao sol para absorver calor e elevar a temperatura do corpo, ou buscando sombra e abrigos para se resfriar e evitar o superaquecimento.

Para quem deseja se aprofundar ainda mais e “sentir na pele” dos répteis, recomendamos o documentário Life in Cold Blood, produzido pela BBC e apresentado por David Attenborough. 

A produção explora diferentes comportamentos desses animais de maneira fascinante, revelando detalhes sobre suas estratégias para lidar com as variações de temperatura e os desafios do “sangue frio”.

Assista os clipes clicando aqui!

 

Reprodução e ovos rígidos

A reprodução dos répteis ocorre através da fecundação interna, e os ovos, com casca rígida ou coriácea, permitem o desenvolvimento embrionário em ambiente terrestre, sem depender da água, como ocorre com os anfíbios. 

Essa casca atua como uma barreira protetora contra dessecação e predadores, ao mesmo tempo em que possibilita as trocas gasosas essenciais para o embrião.

 

Como é determinado o sexo dos filhotes de répteis?

A determinação do sexo dos filhotes de répteis pode ocorrer de duas formas: geneticamente (método mais comum) orientado por cromossomos, encontrado principalmente em serpentes e em grande parte dos lagartos; Ou, pode ser determinado  pela temperatura de incubação dos ovos, predominante em tartarugas, crocodilianos e tuataras.

No entanto, esse processo não é tão simples quanto parece, pois diferentes espécies podem apresentar padrões variados, influenciados não apenas pela temperatura, mas também pelo período de incubação e por outros fatores ambientais.

Tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata), espécie Criticamente em Perigo (CR), em processo de desova, registrada por Giovanna Leite Batistão
Tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata), espécie Criticamente em Perigo (CR), em processo de desova, registrada por Giovanna Leite Batistão

Um exemplo clássico é o das tartarugas marinhas, onde temperaturas mais baixas durante a incubação tendem a produzir machos, enquanto temperaturas mais elevadas favorecem o nascimento de fêmeas.

 

De onde vem o medo dos répteis?

Apesar da impressionante diversidade e importância histórica do grupo – com mais de 12.500 espécies de répteis catalogadas no mundo, das quais 856 ocorrem no Brasil –  os répteis ainda carregam, injustamente, um estigma negativo que persiste há séculos.

Eles  costumam despertar medo ou repulsa em muitas pessoas, principalmente pela aparência singular, movimentos silenciosos e comportamento reservado. Esse sentimento é frequentemente reforçado pelo desconhecimento, por experiências negativas e, sobretudo, por fatores culturais e sociais profundamente enraizados.

Ao longo do tempo, mitos e representações culturais retrataram os répteis, principalmente as serpentes, como símbolos de perigo, traição  ou maldade. Essas narrativas ajudaram a consolidar o medo e o preconceito em relação a esses animais.

Cascavel (Crotalus durissus), fotografada em Picuí/PB, por Bruno França
Cascavel (Crotalus durissus), fotografada em Picuí/PB, por Bruno França

Ainda hoje, essa associação aparece em filmes, desenhos e jogos, onde personagens considerados “vilões” são frequentemente inspirados em  cobras, lagartos ou jacarés.

Do ponto de vista evolutivo, o medo dos répteis também tem uma explicação plausível: evitar animais potencialmente perigosos pode ter sido uma vantagem adaptativa para os primeiros hominídeos  na África, onde serpentes peçonhentas eram (e ainda são) comuns. 

 

A importância ecológica dos répteis

Ao longo de milhões de anos de evolução, os répteis desenvolveram adaptações que os permitiram ocupar uma grande variedade de ambientes e exercer um papel ecológico essencial para o equilíbrio dos ecossistemas ao qual fazem parte.

Dos mais variados tamanhos e modos de vida, os répteis participam ativamente das cadeias alimentares, atuando tanto como predadores quanto como presas. Lagartos e serpentes, por exemplo, ajudam a controlar populações de insetos e roedores, prevenindo desequilíbrios que poderiam afetar tanto ambientes naturais quanto zonas antrópicas.

 

Cobra-de-duas-cabeças (Amphisbaena alba), lindamente registrada no Parque das Dunas, em Natal/RN - por Bruno França
Cobra-de-duas-cabeças (Amphisbaena alba), lindamente registrada no Parque das Dunas, em Natal/RN – por Bruno França

E não se engane: nem todos répteis são carnívoros. Muitas espécies são herbívoras ou onívoras, contribuindo para a dispersão de sementes e até mesmo para a polinização. Além disso, por serem sensíveis a alterações ambientais, também atuam como bioindicadores da saúde dos ecossistemas naturais.

Iguana (Iguana iguana), espécie estritamente herbívora, registrada na Lagoa da Confusão/TO, por Janine Schallenberger
Iguana (Iguana iguana), espécie estritamente herbívora, registrada na Lagoa da Confusão/TO, por Janine Schallenberger

Seja um cidadão-cientista no Biofaces

Atualmente, temos 825 espécies de répteis registrados no Biofaces (apenas 6,6% do número total de espécies no mundo). 

E assim está o Ranking dos biofacers com maior número de registros do grupo na plataforma:

Ranking de registros de espécies de répteis no Biofaces

Você já é biofacer? Além de atuar como um cidadão-cientista e ajudar a recontar a história desses animais fascinantes e tão injustiçados, você ainda pode entrar nesse ranking

Quando conhecemos melhor os répteis, deixamos de vê-los como ameaça e passamos a enxergá-los como parte essencial da natureza.

E é nesse olhar que começa a verdadeira conservação.

 

Agora é sua vez! Acesse o Biofaces e compartilhe os seus registros conosco!

 

Redação: Kleyton Camargo – GreenBond Conservation

Revisão: Juliana Cuoco Badari – GreenBond Conservation

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