Zogue-zogue-de-Alta-Floresta, um dos primatas mais ameaçados do Brasil.

Primata recém-descoberto no Brasil já está entre os mais ameaçados do país: conheça a espécie e o projeto que ajuda a protegê-la.

 

Descoberto pela ciência há poucos anos, no norte de Mato Grosso, o zogue-zogue-de-Alta-Floresta vive em uma região marcada pelo desmatamento e pela fragmentação da floresta. Criticamente ameaçado, este primata enfrenta uma corrida contra o tempo, mas uma biofacer está ajudando a criar novos caminhos para sua conservação. 

 

Zogue-zogue-de-Alta-Floresta: conheça um dos primatas mais ameaçados do Brasil.

 

Avistado pela primeira vez em 2012, nas matas do município de Alta Floresta, o Zogue-zogue-de-Alta-Floresta é a espécie de primata mais recente da subfamília Cellicebinae. O que diferencia o Plecturocebus grovesi dos demais primatas do grupo é sua longa cauda preta, incomum nas demais espécies da região.

 

Além das características únicas da pelagem, outros fatores levaram os cientistas a declarar este primata como uma nova espécie. Sua área de ocorrência e a sua história evolutiva, que após estudos de seus traços anatômicos e material genético, evidenciaram diferenças em seu DNA.

 

Com menos de 1kg, este pequeno primata possui pelos alaranjados no rosto, que parecem uma barba ruiva, uma máscara cinza e olhos grandes, castanhos e expressivos. Se move de forma ágil entre as árvores e utiliza a sua cauda preênsil como um quinto membro, que o auxilia em sua locomoção. Passa grande parte de sua vida na copa das árvores, evitando descer ao chão sempre que possível.

 

Dois indivíduos de Zogue-zogue-de-Alta-Floresta nos galhos de uma árvore.
Zogue-zogue-de-alta-floresta, a nova espécie de primata descoberta pela ciência, mas que já encontra-se ameaçada. Foto: Ivã Carlos Schuster Júnior.

 

Seus comportamentos também são fascinantes. O zogue-zogue-de-alta-floresta é uma espécie monogâmica, podendo permanecer a vida inteira com o mesmo parceiro. Costumam viver em pequenos grupos familiares, com destaque para o cuidado paterno, os machos carregam os filhotes na maior parte do tempo.

 

Os casais deste primata costumam dar a luz a um único filhote por ano, o qual permanece no grupo familiar até atingir a maturidade sexual, período que varia entre 2 a 3 anos. Ao atingir a maturidade, a cria deixa o grupo em busca de uma parceira para formar uma nova família, que deve ocupar um novo território.

 

São animais territorialistas e utilizam suas vocalizações complexas e em dueto para demarcar e defender seu território, especialmente quando notam uma presença estranha.

 

Recém-descoberto, este primata esteve entre os mais ameaçados do mundo.

 

Descrito pela ciência em 2019, o zogue-zogue-de-Alta-Floresta (Plecturocebus grovesi) possui uma distribuição naturalmente restrita ao norte de Mato Grosso, entre os rios Juruena, Arinos e Teles Pires.

 

Dois indivíduos de Zogue-zogue-de-Alta-Floresta nos galhos de uma árvore.
Primatas da espécie Plecturocebus grovesi avistados no município de Alta Floresta. Foto: Richard Stubing.

 

Essa região está inserida no chamado Arco do Desmatamento, uma das principais fronteiras de expansão agropecuária da Amazônia e um dos territórios brasileiros onde a perda e a fragmentação das florestas exercem forte pressão sobre a biodiversidade.

 

A transformação dessa paisagem pode ser observada de maneira concreta em Alta Floresta. Dados do PRODES/INPE, divulgados pelo ((o))eco, mostram que o desmatamento anual no município passou de 1,55 km² em 2012, para 16,33 km² em 2022. Um aumento significativo de mais de dez vezes.  

 

Paralelamente, dados do MapBiomas mostram que a área ocupada por atividades agropecuárias em Alta Floresta aumentou de 116.872 hectares, em 1985, para 440.113 hectares, em 2021, passando a ocupar quase metade do território municipal.

 

O que se observa, portanto, não é apenas a redução da quantidade de floresta, mas sua transformação em um mosaico cada vez mais fragmentado de pastagens, plantações, estradas, áreas urbanizadas e pequenos remanescentes florestais.

 

 A destruição e fragmentação de habitat ameaça o primata Zogue-zogue-de-Alta-Floresta

 

Esta espécie de primata depende da floresta para realizar praticamente todas as atividades essenciais à sua sobrevivência. Como já descrito anteriormente os hábitos arbóreos e a forte territorialidade, são características que divergem com ambientes fragmentados e desmatados.

 

Quando uma área contínua de floresta é dividida em fragmentos, grupos familiares podem ficar isolados uns dos outros, dificultando a dispersão de indivíduos jovens nas buscas por novos parceiros e novos territórios para estabelecerem as suas famílias. O resultado é o isolamento populacional e a consequente redução do fluxo gênico.

 

Frente a este cenário de isolamento geográfico, estradas, pastagens e áreas agrícolas passam a funcionar como barreiras para o deslocamento desse primata, que depende da floresta para se movimentar e sobreviver.

 

Estudos recentes destacam os impactos da expansão urbana e da construção de estradas sobre as populações que vivem nos remanescentes florestais. Além do isolamento de grupos e a dificuldade de deslocamento entre áreas de floresta, a fragmentação do habitat aumenta a exposição a ameaças como atropelamentos e eletrocussões (morte provocada por descargas elétricas). 

 

Esse conjunto de ameaças explica por que o zogue-zogue-de-Alta-Floresta está entre os primatas mais ameaçados do mundo. A espécie é classificada como Criticamente Ameaçada (CR) pela Lista Vermelha da IUCN, que indica uma tendência de declínio populacional.

 

Em 2022, Plecturocebus grovesi chegou até a ser incluído na lista The World’s 25 Most Endangered Primates”, que reúne algumas das espécies de primatas sob maior risco de extinção no mundo. 

 

Proteger este primata significa proteger a floresta.

 

Zogue-zogue-de-Alta-Floresta utilizando a ponte de dossel.
Um primata que ajuda a restaurar a floresta. Foto: Ivã Carlos Schuster Júnior.

 

A importância do zogue-zogue-de-alta-floresta vai além da conservação de uma única espécie ameaçada. Este primata possui um papel ecológico indispensável no meio em que vive, atuando diretamente na manutenção da floresta, o que gera benefícios para outros seres que dependem deste habitat.

 

Com uma dieta majoritariamente frugívora, este primata alimenta-se principalmente de frutos. Ao se deslocarem pela floresta, transportam e depositam sementes em diferentes locais de sua área de vida, atuando diretamente na dispersão de espécies vegetais, um serviço ecossistêmico essencial para a recuperação da vegetação. 

 

Um estudo feito com outra espécie de primata, da mesma família do zogue-zogue-de-Alta-Floresta, registrou o consumo de frutos de mais de 49 espécies de plantas ao longo de um ano e observaram a deposição de centenas de sementes por dia nas fezes. Isso evidencia a importância deste animal para a conservação das florestas.

 

Outro estudo com o zogue-zogue-de-Coimbra (Callicebus coimbrai), registrou distâncias de dispersão de sementes que chegaram a cerca de 200 metros. Resultados que evidenciam como o deslocamento de um pequeno primata pode conectar diferentes pontos da floresta e participar da dinâmica de regeneração vegetal.

 

A importância dessa função se torna ainda maior em uma paisagem fragmentada como a ocupada pelo zogue-zogue-de-Alta-Floresta. Demonstrando a relevância de primatas frugívoros para a conectividade de habitats e a manutenção da diversidade vegetal. 

 

Por ser uma espécie descrita pela ciência recentemente, ainda não existem estudos que tenham caracterizado de forma completa a dieta do zogue-zogue-de-Alta-Floresta (Plecturocebus grovesi). 

 

Essa lacuna de conhecimento torna a situação ainda mais preocupante. Sem saber quais frutos e espécies vegetais fazem parte da alimentação deste primata, também não é possível dimensionar quais interações ecológicas podem ser afetadas pela redução de suas populações. 

 

Isso  significa que podemos estar perdendo não apenas um primata ameaçado, mas também relações entre fauna e flora que a ciência ainda não teve tempo de compreender. 

 

Uma Biofacer está ajudando a reconectar essa floresta.

 

A bióloga conservacionista Fernanda Abra encontrou uma maneira de conectar as barreiras antrópicas entre os fragmentos florestais. Dessa forma, permite que primatas e outras espécies possam continuar ocupando diferentes territórios.

 

Fernanda Abra durante as instalações das pontes de dossel em Alta Floresta.
Fernanda Abra, bióloga conservacionista que está ajudando a salvar o zogue-zogue-de-Alta-Floresta. Foto: IPÊ.

 

Especialista em ecologia de estradas e conservação da fauna, Fernanda pesquisa desde 2009 os impactos da infraestrutura viária sobre a vida silvestre e trabalha no desenvolvimento de soluções capazes de reduzir a mortalidade de animais e recuperar a conectividade entre habitats.

 

Com um espírito inovador e um forte propósito de conservar a biodiversidade, Fernanda é cofundadora do Instituto Reconecta e da ViaFAUNA. Instituições que estão ajudando a evitar a morte de milhares de animais por atropelamentos em todo o Brasil. 

 

Seu trabalho ganhou reconhecimento internacional. Em 2024, recebeu o Whitley Award, considerado um dos principais prêmios internacionais de conservação da natureza, pelo trabalho desenvolvido com o Projeto Reconecta. Em junho de 2026 , foi uma das vencedoras do Wayfinder Award, da National Geographic Society, que lhe concedeu o título de Exploradora da National Geographic. 

 

Mas, para quem acompanha a biodiversidade brasileira, talvez a parte mais importante de sua trajetória esteja nas pontes que ela ajuda a construir. Estruturas simples instaladas acima de estradas e avenidas permitem que animais arborícolas atravessem áreas fragmentadas sem precisar descer ao solo. 

 

Pontes que devolvem caminhos para a fauna.

 

A cada segundo, cerca de 15 animais silvestres morrem atropelados nas rodovias brasileiras. A estimativa do Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas (CBEE), da Universidade Federal de Lavras (UFLA), aponta para aproximadamente 475 milhões de mortes por ano. Revelando como as estradas podem representar uma ameaça significativa para a fauna brasileira.

 

O problema vai além das mortes provocadas pelas colisões. Quando uma estrada corta uma área de floresta, ela interrompe caminhos utilizados pelos animais para encontrar alimento, parceiros e novos territórios. Para espécies arborícolas, como primatas, a abertura de vias pode transformar a copa contínua das árvores em uma paisagem fragmentada, dificultando o deslocamento entre remanescentes florestais.

 

Diante desse desafio surge o Projeto Reconecta, uma iniciativa que busca criar passagens seguras para a fauna por meio da instalação de pontes artificiais de dossel. Posicionadas acima das vias, essas estruturas permitem que animais arborícolas atravessem áreas fragmentadas sem precisar descer ao solo e se expor ao tráfego de veículos.

Instalação das pontes de dossel do programa Alta Floresta Não Atropela.
Instalação de pontes de dossel pelo Projeto Reconecta em Alta Floresta. Foto: Fernanda Abra.

 

Em Alta Floresta, o projeto passou a integrar o programa Alta Floresta Não Atropela, levando as pontes de dossel para pontos estratégicos identificados como importantes para a fauna. 

 

A proposta é simples, mas representa uma mudança importante: em vez de apenas tentar impedir que os animais atravessem as estradas, as estruturas oferecem uma alternativa para que eles continuem utilizando seus caminhos naturais pela paisagem.

 

Primatas encontram novos caminhos para atravessar a floresta.

 

As pontes de dossel instaladas pelo projeto Reconecta em Alta Floresta, evidenciam resultados impressionantes. Em 15 meses de monitoramento, as sete pontes de dossel instaladas no município registraram quase 15 mil travessias de animais arborícolas

 

Entre os usuários estão seis espécies de primatas, incluindo o zogue-zogue-de-Alta-Floresta (Plecturocebus grovesi), o macaco-aranha-de-cara-preta (Ateles chamek), o bugio-ruivo (Alouatta puruensis), o mico-de-Schneider (Mico schneideri), o macaco-da-noite (Aotus infulatus) e o macaco-prego (Sapajus apella). 

 

Para o zogue-zogue-de-Alta-Floresta, essa conexão é especialmente importante. O primata ameaçado de extinção e com distribuição geográfica restrita, encontrou nas pontes de dossel uma oportunidade de continuar ocupando o seu território.

 

Zogue-zogue-de-alta-floresta utilizando as pontes de dossel implementadas pelo Projeto Reconecta.
Zogue-zogue-de-alta-floresta utilizando as pontes de dossel implementadas pelo Projeto Reconecta. Foto: Fernanda Abra.

 

Em uma floresta fragmentada, onde ruas e avenidas interrompem sua locomoção, as pontes oferecem uma passagem segura entre áreas que antes não podiam ser acessadas pelo primata. Barreiras geográficas que estavam contribuindo diretamente para a diminuição de suas populações, hoje não existem mais.

 

E o benefício não se limita aos primatas. As estruturas já registraram o uso por diferentes espécies de mamíferos arborícolas. Mostrando que uma única intervenção pode beneficiar várias espécies que enfrentam o mesmo problema, uma floresta que continua existindo, mas cujos caminhos foram interrompidos pela infraestrutura humana.  

 

Você também pode ajudar a proteger este primata.

 

Conhecer uma espécie é um dos primeiros passos para protegê-la. Especialmente quando se trata de um primata tão pouco conhecido quanto o zogue-zogue-de-Alta-Floresta. Cada novo registro pode contribuir para ampliar o conhecimento sobre onde ele ocorre e como utiliza a paisagem. 

 

A comunidade de observadores e fotógrafos de natureza do Biofaces já ajudou a reunir 26 registros da espécie, entre fotografias e vídeos. Registros que ajudam a construir um retrato mais completo da presença deste primata ameaçado na natureza. 

 

Dados como  localização, data e imagens associadas a cada observação fortalecem a ciência cidadã e  contribuem complementando o conhecimento produzido por pesquisadores. O que apoia diretamente no planejamento de ações de conservação.

 

Por isso, queremos reunir mais registros da espécie na plataforma! Se você encontrar um zogue-zogue-de-Alta-Floresta durante uma expedição, fotografe ou filme o animal e compartilhe o registro no Biofaces. Mesmo que o encontro seja rápido, a imagem ajuda a documentar a presença desse primata e amplia o conhecimento disponível sobre uma das espécies mais ameaçadas da fauna brasileira. 

Grupo familiar de Zogue-zogue-de-Alta-Floresta descansando no topo de uma árvore.
Seus registros podem ajudar na conservação deste primata. Foto: Eduardo Florence.

 

Aproveite para conferir os registros do zogue-zogue-de-Alta-Floresta já publicados no Biofaces e conheça mais de perto este primata fascinante. 

 

Texto por: Júlia Bastos – Greenbond Conservation

Revisado por: Manoel Pontes – Greenbond Conservation

 

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