Tatu-bola (Tolypeutes tricinctus) registrado por Felipe Peters na APA do Boqueirão da Onça

Animais Fantásticos e Onde Habitam: Conheça as espécies de tatu que vivem no Brasil e seus papeis ecológicos

Os tatus são animais do famoso grupo Xenarthra, no qual também estão incluídas as preguiças e tamanduás. Apesar desses animais encouraçados viverem somente nas Américas, estão por aqui há pelo menos 60 milhões de anos. E como é de se esperar, a variedade é enorme, principalmente aqui no Brasil. Fique com a gente nesse artigo e conheça as espécies de tatus brasileiras, desde a maior até a mais rara.

 

Afinal, quem são os tatus?

Os tatus são mamíferos da ordem Cingulata, grupo exclusivo do continente americano e facilmente reconhecidos por sua armadura óssea que protege o corpo, uma característica distinta e desenvolvida ao longo de anos de evolução.

Os primeiros registros fósseis são datados do Paleoceno, que ocorreu entre aproximadamente 66 e 56 milhões de anos atrás. Esses animais evoluíram de ancestrais comuns às preguiças e tamanduás, formando o grupo dos Xenarthra.

Tatu-peludo (Chaetophractus villosus), espécie dos campos argentinos e chilenos, fotografado por Hector Bottai, em Buenos Aires
Tatu-peludo (Chaetophractus villosus), espécie dos campos argentinos e chilenos, fotografado por Hector Bottai, em Buenos Aires

São animais adaptados aos mais variados ambientes, desde as florestas úmidas da Amazônia, até as paisagens quentes e secas da Caatinga. Mesmo dentro desta realidade, os tatus enfrentam ameaças principalmente relacionadas à perda e desequilíbrio de seu habitat e até mesmo à caça.

 

Como reconhecer um tatu?

Os tatus possuem uma carapaça formada por placas ósseas recobertas por couro rígido, que geralmente se estende da cabeça até a base da cauda, normalmente segmentada em bandas, ou “cintas”. Esse formato lhes confere um visual inconfundível, proporcionando mobilidade e proteção contra predadores.

Apresentam grande variedade de formas, cores e tamanhos, mas além desta “armadura”, outras características físicas são cruciais para entender a anatomia de um tatu:

Garras: São adaptações marcantes e fundamentais para seu modo de vida, sendo essenciais para a sobrevivência desses animais no ambiente subterrâneo.  Nas patas dianteiras  elas se destacam por serem longas, fortes e levemente curvas, funcionando como verdadeiras ferramentas de escavação. Com elas, os tatus cavam tocas que oferecem abrigo contra o calor e proteção contra predadores (inclusive seus filhotes) e ainda ajudam na busca por larvas e insetos, uma importante fonte de alimento.

Tatu-de-rabo-mole-pequeno (Cabassous unicinctus), registrado em Chapadão do Céu/GO, por Antonino Gonçalves Medina
Tatu-de-rabo-mole-pequeno (Cabassous unicinctus), registrado em Chapadão do Céu/GO, por Antonino Gonçalves Medina

Pernas curtas: Não se engane, apesar dos membros reduzidos, se locomovem com agilidade. Seja na caça, na fuga de predadores ou até mesmo em “corridas” contra outros machos na disputa por fêmeas, eles mostram que tamanho não é sinônimo de lentidão.

Corpo alongado: O corpo em formato cilíndrico e esguio lhes possibilitam um melhor ajuste e encaixe nas tocas que cavam e utilizam como abrigo. 

Olhos e orelhas: Normalmente de tamanho reduzido, indicam que a audição e a visão dos tatus não são tão desenvolvidas quanto seu olfato, seu principal sentido. Essa habilidade apurada é facilmente associada ao focinho alongado, marca registrada da espécie.

 

Qual a importância ecológica dos tatus?

Os tatus são verdadeiros engenheiros dos ecossistemas, com especialização em escavação de solos. Como escavadores proficientes, promovem a aeração do solo, facilitando a infiltração de água e a reciclagem de nutrientes, o que contribui para a fertilidade e a estrutura dos ambientes terrestres.

E mais do que isso, as tocas cavadas criam refúgios que podem ser utilizados por outras espécies de animais, desde invertebrados até pequenos mamíferos, répteis e anfíbios, ampliando a disponibilidade de abrigos naturais.

 

Tatu-de-rabo-mole-pequeno cavando o solo, registro feito em Campo Grande/MS por Roberto Pellizzer
Tatu-de-rabo-mole-pequeno cavando o solo, registro feito em Campo Grande/MS por Roberto Pellizzer

Ao desempenhar múltiplos papeis na natureza, outras duas contribuições importantes para a saúde do ecossistema estão diretamente ligadas à sua dieta. Confira a seguir o que os tatus comem.

 

O que os tatus comem?

A dieta dos tatus varia conforme as espécies, estando relacionadas a disponibilidade do habitat, seu comportamento e até tamanho. Mas de forma geral, os tatus se alimentam principalmente de insetos e outros invertebrados do solo, como formigas, cupins, besouros, larvas e minhocas.

Sendo assim, também é um importante agente de controle de insetos e outros invertebrados, ajudando a equilibrar a cadeia alimentar e contribuindo para a saúde da vegetação natural e até mesmo de plantações cultivadas pelo homem.

Muitas espécies possuem comportamentos oportunistas e estão atentas à disponibilidade de alimentos que o ambiente lhe proporciona. Pequenos mamíferos, ovos, raízes e frutos também fazem parte do seu cardápio.

E por último, nesta jornada tripla de trabalho, os tatus também fazem parte da “equipe de limpeza” da natureza. Muitas espécies se alimentam de matéria orgânica em decomposição ou carcaças de outros animais, até mesmo, predadores

 

Quantas espécies de tatu existem?

Atualmente, segundo o Grupo de Especialistas em Tamanduás, Preguiças e Tatus da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN SSC ASASG), há 27 (em breve, serão 30) espécies de tatus distribuídas pelas Américas.

Tatu-anão ou piche (Zaedyus pichiy), registrado por Cláudio Dias Timm, em Punta Ninfas, na Argentina.
Tatu-anão ou piche (Zaedyus pichiy), registrado por Cláudio Dias Timm, em Punta Ninfas, na Argentina.

Quais espécies de tatus vivem no Brasil?

No Brasil, existem 13 espécies de tatus, algumas endêmicas do país ou de regiões específicas, como o tatu-bola do Nordeste (Tolypeutes tricinctus), cuja distribuição se restringe à Caatinga e ao Cerrado brasileiros. 

Diante da tamanha diversidade de espécies brasileiras, e apesar do desafio, separamos algumas para você conhecer (Acredite, essa não foi uma tarefa fácil, pois todas as espécies são incríveis!).

 

A maior espécie de tatu

Tatu-canastra (Priodontes maximus)

O gigante tatu-canastra é a maior espécie de tatu do mundo! Sua distribuição geográfica é ampla e cobre quase toda a parte central-norte da América do Sul. No Brasil, é mais comum na Amazônia, Pantanal e Cerrado, mas também ocorre na Mata Atlântica, mesmo tendo sua área histórica reduzida neste último.

O seu tamanho é surpreendente, assim como sua capacidade de cavar tocas, com suas grandes garras dianteiras. O peso de um indivíduo pode variar entre 20 e 60 kg, tanto machos quanto fêmeas. Pesado, mas também comprido: o comprimento médio da espécie passa dos 100 cm, só a cauda, pode medir 50cm (SALVE).

Tatu-canastra (Priodontes maximus), registrado em plena luz do dia, na Serra da Canastra, no município de Sacramento/MG, por Luiz Alberto Santos
Tatu-canastra (Priodontes maximus), registrado em plena luz do dia, na Serra da Canastra, no município de Sacramento/MG, por Luiz Alberto Santos

As suas garras são fortes, compridas e grossas, com destaque para a garra do terceiro dedo, que pode medir até 20,3cm. Com elas, eles cavam tocas imensas, com entradas semicirculares de 40cm de largura e 33cm de altura, em média. Quase uma escavadeira!

O Projeto Tatu-canastra (ICAS) trabalha diariamente pelo estudo e conservação dessa espécie tão importante para a ecologia dos nossos biomas. Com frequência, são compartilhados no Biofaces, alguns registros de armadilhas fotográficas, resultado do monitoramento feito pela equipe.

Tatu-canastra registrado durante monitoramento por armadilha fotográfica, realizada pelo Projeto Tatu Canastra
Tatu-canastra registrado durante monitoramento por armadilha fotográfica, realizada pelo Projeto Tatu Canastra

A menor espécie de tatu 

Tatu-bola (Tolypeutes matacus)

No Brasil, a disputa para ocupar este posto é acirrada, variando conforme os parâmetros analisados. Mas uma se destaca, em valores médios de peso e comprimento: o menor tatu brasileiro é o tatu-bola (Tolypeutes matacus). 

Tatu-bola (Tolypeutes matacus), fotografado por Edgar Romero, em Timane, no Paraguai
Tatu-bola (Tolypeutes matacus), fotografado por Edgar Romero, em Timane, no Paraguai

Dados compilados registram médias de peso de 1,32 kg para machos e 1,17 para fêmeas, distribuídos num corpo de 21,8 a 43 cm (cauda de 6 a 8 cm). No Brasil, a área de ocorrência desses pequenos se limita ao estado do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, tendo maior ocupação na Bolívia, Paraguai e Argentina (SALVE).

 

A mais famosa espécie de tatu

Tatu-peba (Euphractus sexcinctus)

Uma pessoa pode até não saber o nome desta espécie, mas se já encontrou algum tatu na natureza, a chance de ter sido o tatu-peba é grande. Amplamente distribuído na América do Sul, não sendo encontrada em apenas três estados brasileiros: Acre, Amazonas e Roraima.

Tatu-peba (Euphractus sexcinctus) em Caiçara do Rio do Vento/RN, por Thomaz Callado
Tatu-peba (Euphractus sexcinctus) em Caiçara do Rio do Vento/RN, por Thomaz Callado

A espécie está presente em todos os biomas brasileiros e sua adaptabilidade impressiona, até mesmo na dieta, é o famoso “come de tudo”. Pode se alimentar de matéria vegetal em geral, como frutas e raízes e também de outros animais, invertebrados, pequenos vertebrados e carcaças, esta, da carniça até as larvas.

Muitas vezes encontrado em bandos, há registros de grupos predando bezerros e filhotes de outros animais. Impressionante, não é mesmo?

 

A espécie mais comum

Tatu-galinha do Sul (Dasypus novemcinctus)

O tatu-galinha do Sul é um dos tatus mais comuns e amplamente distribuídos nas Américas, incluindo boa parte do Brasil. Nos últimos anos, a espécie vem sendo reavaliada, e análises genéticas e morfológicas sugerem que ela possa, na verdade, ser dividida  em mais de uma espécie. 

Por enquanto, o tatu-galinha é a espécie de Xenarthra com a maior distribuição geográfica, ocorrendo desde o centro dos Estados Unidos até o noroeste da Argentina.

Dois tatus-galinha (Dasypus novemcinctus), evidenciando suas 9 bandas e orelhas levantadas, fotografados por Zêila Lemos Pereira em Abadiânia/GO
Dois tatus-galinha (Dasypus novemcinctus), evidenciando suas 9 bandas e orelhas levantadas, fotografados por Zêila Lemos Pereira em Abadiânia/GO

Pode ser facilmente reconhecido pelos nove cinturões móveis em seu dorso, que formam sua carapaça resistente e flexível. Além disso, suas orelhas que medem de 3 a 5,6 cm, também chamam a atenção.

 

Dia do Tatu

Depois de conhecer mais sobre a importância ecológica e a diversidade dos tatus, que tal aproveitar o Dia do Tatu para ficar atento a esses animais e compartilhar seus registros no Biofaces?

E opções não faltam! Das 27 espécies de tatu existentes, algumas ainda não têm nenhum, ou têm pouquíssimos registros na nossa plataforma. Aproveite esse dia simbólico para compartilhar o seu acervo conosco ou até mesmo programar a próxima viagem.

Quer fazer parte de uma comunidade de apaixonados pela vida selvagem? Clique aqui e comece a compartilhar seus registros.

 

Texto por: Kleyton Camargo – Greenbond Conservation

Revisado por: Juliana Cuoco Badari – Greenbond Conservation

1 Comment

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Zêila Lemos Pereirareply
13 de agosto de 2025 at 12:04

Muito informativo, importante e interessante!!! Plataforma de parabéns!
Documentário muito bem elaborado!

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